Content Warning: Violin

27/11/2011

Ofuscado pela Inglaterra do século XVI, em cujo contexto só nos
vêm à mente Henrique e Elizabeth, está Sir Thomas Wyatt.


F AREWELL, Love, and all thy laws for
        ever ;
   Thy baited hooks shall tangle me no more.
Senec, and Plato, call me from thy lore,
To perfect wealth, my wit for to endeavour ;
In blind error when I did persever,
Thy sharp repulse, that pricketh aye so sore,
Taught me in trifles that I set no store ;
But scaped forth thence, since, liberty is lever1
Therefore, farewell ! go trouble younger hearts,
And in me claim no more authority :
With idle youth go use thy property,2
And thereon spend thy many brittle darts :
    For, hitherto though I have lost my time,
    Me list no longer rotten boughs to clime.

(Wyatt’s ‘A renouncing of Love‘)

O contexto da época me obriga a atribuir várias características poeticamente clichês aos escritos de Wyatt. E acho que o único caso em que eu não uso a palavra “clichê” pejorativamente é quando se trata de poesia.

Devido à pouquíssima fama de Sir Wyatt, pode-se entender o meu espanto quando o vi ser retratado em The Tudors. Papel insosso, romantizado e simplificado. Mas ainda assim, foram declamados vários de seus poemas no decorrer da série, sendo todos perfeitamente encaixados à cena – certo, provavelmente a cena é que foi encaixada. Minhas palmas ao diretor, e deixo aqui a prova das minhas palavras:

Poria aqui o sempre presente “warning” que acompanha essa cena. É forte. E mais forte que as pessoas sendo decapitadas é a declamação da These Bloody Days Have Broken My Heart com o violino (sempre) fatídico ao fundo. E a literatura sempre nos torna mais fortes (e principalmente mais fracos) a poemas e violinos em escalas menores.

These bloody days have broken my heart.
My lust, my youth did them depart,
And blind desire of estate.
Who hastes to climb seeks to revert.
Of truth, circa Regna tonat.

(Wyatt’s These Bloody Days Have Broken My Heart)

.

(Lembrando aos possíveis chatos de plantão, que aqui discuto literatura, e não a validade histórica ou artística da série The Tudors. E aposto que esta observação entre parênteses vai comprometer a poesia e o drama do resto do post. Oh, well.)

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Eça é boa.

03/02/2011

“Envelheci. Vieram as rugas escuras. A grande vegetação, que me sentia esfriar, mandou-me os seus vestidos de hera. Os corvos não voltaram: não voltaram os carrascos. Sentia em mim a antiga serenidade da natureza divina. As eflorescências, que tinham fugido de mim, deixando-me só no solo áspero, começaram a voltar, a nascer, em roda de mim, como amigas verdes e esperançosas. A natureza parecia consolar-me. Eu sentia chegar a podridão. Um dia de névoas e de ventos, deixei- me cair tristemente no chão, entre a relva e a umidade, e pus-me silenciosamente a morrer.”

Trecho de “Memórias de uma Forca”, do Eça de Queiroz. É necessário certo empenho para desenterrar esse texto – bem como acreditar em sua autoria (foi escrito quando Eça de Queiroz tinha 22 anos. Compreensível e indulgenciável) – e para não notar a inspiração sobrepujada à técnica. Característico de escritos da juventude. E eu, particularmente, gosto.


Ausência

27/01/2011

 

Ausência

Na almofada branca,
as sandálias sonham
com a seda dos teus pés…

Partiste..
Mas a alegria ainda ficou no quarto,
talvez no ninho morno, calcado por teu corpo
no leito desfeito…

Entardece…
Esfuziante e verde,
um beija-flor entrou pela janela,
( pensei que a tua boca ainda estivesse aqui…)

Do frasco aberto,
vestidas de vespas,
voam violetas…

E na almofada de seda,
beijo as sandálias brancas.
vazias dos teus pés.
(Guimarães Rosa – que me retira a autoridade para quaisquer comentários)

A Brincadeira de Milan Kundera

21/07/2009

Autor de “A Insustentável Leveza do Ser”, “Risíveis Amores”, e minha última leitura: “A Brincadeira”, o tcheco Milan Kundera é minha nova obsessão.

“Quando meus companheiros julgaram que meu comportamento e meus sorrisos cheiravam a intelectualidade (outro termo pejorativo célebre da época), consegui afinal acreditar neles, incapaz que era de imaginar (estava acima da minha audácia) que todos os outros estivessem errados, que a própria Revolução, o espírito da época, pudesse se enganar, e eu, indivíduo, pudesse ter razão.”

“Fala-se muito de amor à primeira vista; sei muito bem que o amor tem tendência a engendrar sua própria lenda, a mitificar seus começos; por isso, não ouso afirmar que se tratava aqui de um amor tão rápido.”

Dois dos meus trechos favoritos da narrativa. E, convenientemente, sínteses dos dois principais temas do livro.

Une Charogne

29/11/2008

no seco português, “Uma Carniça”, por Charles Baudelaire.
É como me sinto agora, mas de uma maneira bem menos poética.

“Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos
Numa bela manhã radiante:
Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,
Uma carniça repugnante.

As pernas para cima, qual mulher lasciva,
A transpirar miasmas e humores,
Eis que abria desleixada e repulsiva,
O ventre prenhe de livores.

Ardia o sol naquela pútrida torpeza,
Como a cozê-la em rubra pira
E para o cêntuplo volver à Natureza
Tudo o que ali ela reunira.

E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça
Como uma flor a se entreabrir.
O fedor era tal que sobre a relva escassa
Chegaste quase a sucumbir.

Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,
Dali saíam negros bandos de larvas
A escorrer como um líquido grosso
Por entre esses trapos nefandos.

E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,
Que esguichava a borbulhar,
Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,
Vivesse a se multiplicar.

E esse mundo emitia uma bulha esquisita,
Como vento ou água corrente,
Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita
E à joeira deixa novamente.

As formas fluíam como um sonho além da vista,
Um frouxo esboço em agonia,
Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista
Apenas de memórias um dia.

Por trás das rochas, irrequieta, uma cadela
Em nós fixava o olho zangado,
Aguardando o momento de reaver àquela
Carniça abjeta o seu bocado.

– Pois há de ser como essa coisa apodrecida,
essa medonha corrupção,
Estrela de meus olhos, sol da minha vida,
Tu, meu anjo e minha paixão.

Sim! Tal serás um dia, ó deusa da beleza,
Após a bênção derradeira,
Quando, sob a erva e as florações da natureza,
Tornares afinal à poeira.

Então, querida, dize à carne que se arruína,
Ao verme que te beija o rosto,
Que eu preservarei a forma e a substância divina
De meu amor já decomposto.”

Essa última estrofe sempre me comove.
Provavelmente o poema mais lindo que conheço. Com certeza, meu favorito. Se não o decorei ainda, não demora muito. Eu ia postar o original, mas prefiro-o em português. A quem interessar, é só procurar “Une Charogne”, em qualquer site de busca. Hãr.

Indicação pros poucos apreciadores de obras ‘exóticas’: “A História da Feiúra”, de Umberto Eco. Reúne todos os horrores do mundo em textos e obras selecionados, e um ‘texto-corpo’ do autor (e sim, Une Charogne está, obviamente, incluso).

Princípio

24/11/2008

Criando sem um grande propósito humanitário.
Só pra poder escrever. Sei que me vai ser útil, apesar de que, provavelmente, serei a única a ler isso aqui.
E ‘Sursis’, cada um entenda como quiser. Quase todos os sentidos se adequam.

Até um rasgo de inspiração.